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Uma retrospectiva de 1913: Um crítico de imprensa perguntou à lendária atriz de teatro Sarah Bernhardt porque estava aparecendo em filmes de baixo nível em vez de concentrar-se em atuar em obras de teatro. A lendária atriz respondeu que ela atuava em filmes para a posteridade. A triste realidade é que a metade dos filmes produzidos nos Estados Unidos durante o primeiro século da indústria está perdida.
Em fins da década de 70, Martin Scorsese publicou um sinal de alerta advertindo que a herança insubstituível de una forma importante de arte estava em perigo. Sua perseverança o levou a efetuar avanços significativos nas práticas de restauração e armazenamento de filmes.
Em 1990, junto de outros diretores de vanguarda fundaram a The Film Foundation, entidade que se converteu em uma força significativa em gerar consciência e em financiar a restauração e armazenamento de centenas de filmes clássicos.
Um artigo do New York Times, escrito por Michael Cieply, em 23 de dezembro de 2007, colocou em perspectiva o valor financeiro de um armazenamento eficiente. Citava um relatório publicado pelo Global Media Intelligence que afirmava que aproximadamente um terço dos 36 bilhões de dólares em receita anual ganha pelos estúdios de Hollywood são produzidos por suas cinematecas.
Outro passo gigantesco foi dado em novembro passado quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas publicou um extenso relatório intitulado 'The Digital Dilemma' ( O Dilema Digital), com o subtítulo 'Strategic Issues in Archiving and Accessing Digital Motion Picture Materials' (Problemas Estratégicos no Arquivamento e Acesso de Materiais de Filmes Digitais). O relatório de 75 páginas tem a co-autoria de duas respeitadas autoridades, Andy Maltz, diretor do Science and Technology Council da Academia e o expert em conservação de filmes Milt Shefter.
Uma linha no prefácio anuncia a missão: “Inclusive alguns dos artistas que são os mais defensores do novo mundo de filmes digitais ás vezes parecem não ter explorado completamente a questão do que aconteceria com uma produção digital após sai da sala de cinema e começa sua vida (se tudo der certo) como um recurso de longo prazo de um estúdio de cinema”.
O estudo de um ano de duração foi empreendido no inverno de 2005 depois que Phil Feiner, presidente da Digital Archiving Committee da Academia, propôs uma reunião da alta cúpula com os arquivistas dos estúdios e líderes de tecnologia, junto com suas contrapartes em outras organizações, incluindo agências de governo, saúde, universidades e astrônomos.
“Esta é a primeira vez que os executivos de tecnologia e arquivistas dos estúdios mais as outras instituições públicas como a Livraria do Congresso, os arquivos da UCLA, e a Association of Moving Image Archivists, se reuniram para discutir estes temas de preservação”, menciona Shefter.
“A Academia não é uma organização de defesa”, acrescenta Maltz. “Temos pessoas que sabem e se preocupam com a importância de armazenar em conjunto para discutir os assuntos e para determinar as perguntas que necessitam ser feitas e respondidas. O relatório é um resumo de nossas conclusões. Mais de 70 experts foram entrevistados posteriormente”.
Somente para colocar este comentário em perspectiva, em 1999 os cientistas da NASA descobriram que não podiam ler os arquivos digitais das imagens descritivas da sonda espacial Viking enviados de volta a Terra, em 1975, devido a que os dados estavam em um formato obsoleto.
Processo Acessível
Shefter observa que todos os estúdios de Hollywood têm estado arquivando seus filmes, incluindo o negativo original e os materiais intermediários, as separações de YCM (amarelo, ciano e magenta), em uma película estável de poliéster branco e preto, sob um ambiente de umidade e temperatura controladas pelos últimos 40 anos e, em alguns casos, até mais.
“Uma vez calculei que o filme, em média, gera 300 caixas de negativo, interpositivos, filme YCM, negativo B, outtakes, mais roteiros e notas”, disse Shefter. “Os YCMs podem ser usados para reproduzir o negativo original sem comprometer as imagens. É um processo muito econômico se comparado com os custos do armazenamento digital”.
Um artigo recente publicado pelo DGA Quarterly menciona Feiner que observou isto quando Superman Returns foi produzido em formato digital em 2006, e gerou estimados 200 terabytes de dados. Um único terabyte equivale a 10 bilhões de bytes de dados.
Feiner pergunta, “Que fazemos com todas estas informações?”
Shefter observa que I Love Lucy e outros programas produzidos pela Desilu Studios há uns 50 anos, ainda são comercializados devido a que foram adequadamente arquivados.
“Trabalhei nos CFI Labs por anos”, menciona Shefter. “Temos filmes dos programas da Desilu armazenados em nossos cofres. Os programas originais foram produzidos em filme de película branco e preto, e os posteriores, em negativo colorido. A Desilu arquivou o filme de seus programas de TV no cofre do laboratório sem se dar conta que um dia chegariam a ser muito valiosos. Alguns destes programas ainda estão sendo reprisados nas televisões gerando lucros”.
O relatório do 'Dilema Digital' está centralizado nos filmes dos estúdios de Hollywood. Compara ambas práticas e custos para armazenamento digital e fotoquímico. O relatório cita o consenso geral existente em torno da maior volatilidade da mídia digital em comparação com o filme de película (celulóide), devido à degradação dos sinais e a obsolescência dos formatos e padrões. Existe um consenso que os arquivos digitais devem ser migrados a cada quatro ou cinco anos para assegurar sua acessibilidade.
A Academia informa que o custo anual para armazenar um arquivo master digital para um filme digital é de aproximadamente 12.514 dólares comparado com os 1.059 dólares do armazenamento do filme em película. O relatório afirma que o custo de armazenar adequadamente todos os elementos relevantes de um filme produzido em formato digital é de 208.059 dólares ao ano. O relatório também assinala que um disco rígido para mídia digital pode “se congelar” em tão somente dois anos, e os arquivos DVD eventualmente se degradarão em mais ou menos a metade deste tempo, e não se espera que durem mais de 15 anos.
O relatório também se concentra no uso da tecnologia de intermediação digital (DI) para controlar os filmes produzidos tanto em película como no formato digital. Os masters ajustados serão usados para produzir cópias digitais e para cópias em positivo de distribuição em cinemas.
Mais de 20 centros de pós-produção nos Estados Unidos estão atualmente fornecendo serviços de intermediação digital. Não existem estatísticas oficiais documentando a porcentagem de filmes que são masterizados digitalmente. As estimativas variam de 70 a 80 por cento. Depois da edição offline, o negativo cortado será digitalizado com resoluções que variam de HD a 2K e 4K dependendo do produtor e do orçamento. Os filmes que são distribuídos em cinemas serão gravados em película de 35 mm que poderá ser convertido em um registro de arquivo de corte final.
Colocando o dedo na ferida
“O que é que ocorrerá daqui a 20, 30 ou 50 anos quando alguém quiser voltar a publicar uma versão editada do diretor incluindo as partes não utilizadas?” pergunta Shefter.
Está é uma pergunta retórica. Ele observa que a menos que os donos do conteúdo estejam comprometidos a migrar os masters de intermediação digital e os arquivos digitais dos outtakes para novos formatos e padrões, a cada quatro ou cinco anos, os riscos serão que estes serão perdidos para sempre.
“É importante para os produtores entender que os arquivos de master digital que são gerados atualmente não são uma mídia de arquivo que possa ser desmontada em cinco a 10 anos”, menciona Shefter. Uma alternativa será gravar em filme de película e fazer separações de YCM. Entretanto, o único que será preservado será o que existir na intermediação digital.”
Enquanto o relatório do 'Dilema Digital' se concentra em filmes de estúdios produzidos para distribuição em cinemas, gera interrogações acerca dos shows de televisão produzidos em filme de película que são pós-produzidos em formato HD (Alta Definição). Maltz observa que os produtores podem arquivar o original e cortar o negativo, mas o master HD incita as mesmas inquietudes que os masters de intermediação digital na indústria de filmes. Se ficarem degenerados os arquivos digitais de HD e as fitas? Estará disponível, no futuro, o hardware compatível necessário para ler e remasterizar os arquivos. Como evoluirá o software? O público de amanhã contará com sets de televisão de 2K e 4K de resolução em seus lares?
“O relatório coloca o dedo na ferida”, conclui Maltz. “Nosso objetivo foi fazer com que as pessoas, tanto no interior como no exterior da indústria, estivesse consciente deste importante assunto”.
A alternativa para encontrar soluções é a atemorizante conclusão do artigo de Cieply no New York Times. Prognostica que o público no futuro poderá ver os filmes de Wallace Beery muito depois que os filmes contemporâneos produzidos e arquivados no formato digital tiverem desaparecido. Nota: Beery figurou em filmes de Hollywood de 1913 até 1949. |