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A perpetuidade da vida útil dos filmes é muito cara

Da edição na web do New York Times © The New York Times Company. Reimpresso com permissão

Dezembro 23, 2007
Scene Stealer
Por MICHAEL CIEPLY
LOS ANGELES

TIME foi um estúdio de cinema que podia embalar um filme e todos seus diversos erros, tomadas alternativas e outros restantes, imediatamente após o pessoal da produção finalizar e despachar literalmente para a mina de sal.

Dando conta de que poderia ganhar muito dinheiro revendendo filmes antigos — na televisão, depois na TV a cabo, videocassetes, DVDs e assim sucessivamente — as empresas como a Warner Brothers e a Paramount Pictures têm estado por décadas guardando em arquivos suas cópias masters de filme de 35mm e material fonte associado, alguns dos quais jazem em uma mina de sal de Kansas ou em minas de pedra calcárea no Kansas e na Pennsylvania.

Um filme poderia, por muitos anos, ser mantido fresco e seguro até que alguns executivos de empresas decidiram que já era o tempo, com uma coleção especial de Wallace Beery ajustada para una reedição de aniversário em 3-D de “Barton Fink”. Esta coleção fornecia uma visão geral por trás das cenas e, até hoje  não vi os irmãos Coen tratando de explicar uma brincadeira interna de Hollywood para John Turturro.

Era um sistema de guardar e esquecer, que não custava muito, e combatia os pecados de autodestruição de uma indústria que descartava seus primeiros trabalhos ou permitia que se degradassem no material combustível antigo. Com efeito, somente a metade dos filmes filmada antes dos anos 50 sobreviveu.

Mas, logo surgiu o filme digital. E, repentinamente, a indústria do cinema estava lidando novamente com a possibilidade de que seus bens mais preciosos, os filmes, não são tão duráveis como deveriam ser.

O problema se tornou público, mas levemente no mês passado, quando o Conselho de Ciência e Tecnologia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas publicaram os resultados de um estudo de um ano de duração sobre o armazenamento digital no negócio do cinema. Intitulado “O Dilema Digital” (The Digital Dilemma) o relatório do Conselho emergiu justamente quando os roteiristas de Hollywood começaram sua greve. Ocupados marchando ou furando a fila de grevistas, o pessoal da indústria distraidamente passou por alto a alarmante conclusão do relatório: Para armazenar uma cópia master digital de um filme o custo seria de uns 12.514 dólares por ano, contra os 1.059 dólares que custa manter um master de filme convencional.

Mais grave ainda, para manter o enorme enxame de dados produzidos quando um filme “é concebido digitalmente” — considerando o produzido e usando todos os processos eletrônicos, em vez de confiar tudo ou uma parte em filme — eleva o custo de preservação para 208.509 dólares por ano, soma enormemente superior aos 486 dólares que custa guardar no cofre de armazenamento frio os equivalentes em negativos de câmera, gravações de áudio, fotografias nos sets e roteiros anotados de uma produção totalmente feita em filme.

Tudo isto pode não parecer razoável. Afinal de contas, a magia digital faz supor que informações de todo tipo estão mais disponíveis e não menos disponíveis. Mas, a onipresença que apresenta não é o mesmo que a permanência.

Em uma entrevista telefônica no começo deste mês, Milton Shefter, um preservacionista de filmes antigos, que ajudou a preparar o relatório da Academia, disse que se os problemas associados com o armazenamento de filmes digitais não forem solucionados, isto poderia levar a indústria “de volta” aos primórdios, onde um filme era exibido por una semana ou duas e, em seguida, jogado fora”.

Mr. Shefter e seus associados não discutem sobre se os filmes atualmente estão ao ponto de converterem-se em algo tão efêmero. Mas, são observadas dificuldades e tendências que podem levar a muitos filmes ou o material-fonte associado com eles para uma “extinção digital” através de um período relativamente curto de anos, a menos que algo mude esta situação.

No presente, uma cópia de virtualmente todos os filmes dos estúdios — inclusive aquelas como “Click” ou “Miami Vice” que são filmados usando processos digitais — está sendo armazenada em formato de filme, protegendo assim o produto final por 100 anos ou mais. Para os fãs de filmes, a prática atual é menos que perfeita. Independentemente de como seja filmada, a maioria é editada digitalmente, e depois um master digital é transferido para filme, o que poderá dar como resultado uma imagem de menor qualidade que em um processo puramente feito em filme — e, é assim que se tem armazenado por gerações.

Mas, nas próximas duas décadas, os arquivistas concluíram que a conversão das salas para projeção digital reduzirá fortemente a demanda geral de filme, levando ao ocaso, em termos de mercado, aos principais fabricantes de filme como a Kodak, Fujifilm e AGFA. Neste ponto, o armazenamento digital puro será a norma, levando consigo um conjunto de problemas que nunca inquietou ao filme de película ou celulóide.

Para começar, o hardware e a mídia de armazenamento — fitas magnéticas, discos, e outros — onde um filme é codificado são muito menos duráveis que um bom filme antigo. Se não for reproduzido freqüentemente, um disco rígido ficará congelado em apenas dois anos. Similarmente, os DVDs tendem a degradar: de acordo com o relatório, somente a metade de uma coleção de discos poderá ser  esperada que dure uns 15 anos, um futuro não tranqüilizante para aqueles que pensam em termos de séculos. Da fita de áudio, foi descoberto que quando fica degradada ela tende a se tornar uma “muralha impenetrável”. Enquanto que fita convencional começa a emitir ruídos, a variedade digital se torna indecifrável.

DIFICULDADES deste tipo se intensificam por causa das alterações constantes na tecnologia. Da mesma maneira que uma geração de magia digital é substituída pela próxima, o material armazenado deve ser repetidamente migrado para o novo formato ou correrá o risco de tornar-se impossível de ser lido. Deste modo, os cientistas da NASA constataram, em 1999, que não podiam ler os dados digitais guardados de uma sonda espacial Viking em 1975; o formato estava obsoleto.

Tudo isto torna o armazenamento digital um processo dinâmico em vez de ser estático e custando muito mais do que os estúdios estavam acostumados a pagar no passado — não é um assunto sem importância que as empresas de cinema dependem de suas cinematecas para obter um terço de seus 36 bilhões de dólares em subprodutos anuais, de acordo com uma recente avaliação efetuada pelo serviço de pesquisa Global Media Intelligence.

 “O assunto tem estado no are desde que começamos a falar sobre fazer as coisas em forma digital”, comenta sobre o dilema digital, Chris Cookson, presidente de operações técnicas da Warner e diretor de tecnologia.

Uma das realidades mais desconcertantes de uma produção digital, como “Superman Returns”, é que gera, às vezes, mais material de armazenamento do que o filme convencional, criando novas interrogações acerca do que guardar. Essas pilhas podem ocorrer, por exemplo, quando um diretor de atores ou um diretor de fotografia não quer economizar material de filme e, simplesmente, deixa que as câmeras permaneçam funcionando por longos períodos enquanto terminam as cenas.

Muito dos dados resultantes não são necessários de serem guardados como as falhas de ortografia e frases inadequadas apagadas de um processador de texto de um jornalista de algum jornal. Por outro lado, um diálogo entre uma estrela de cinema e um cineasta poderia converter-se em um “aspecto notável” de algum futuro formato de visualização para o local, portanto, quem quer ficar responsável por jogar fora esta passagem?

Por hora, os estúdios estão guardando tanto material efêmero que for possível, armazenando em fitas ou unidades leitoras em cofres não diferentes daqueles que emprega o filme tradicional. Mas, quanto deste material será migrado quando a tecnologia for alterada em 7 ou 10 anos? E as práticas no mundo dos filmes independentes cobrem todo o espectro de situações variando desde uma preservação estudada até a completa desatenção, observa Andrew Maltz, Diretor do Conselho de Ciência e Tecnologia da Academia.

De acordo com Mr. Shefter, um padrão universal para a tecnologia de armazenamento seria um sucesso para reduzir um problema que, de outra maneira, crescerá cada vez que os gênios que criam o hardware digital apareçam com alguma coisa um pouco melhor que seu último bit de genialidade.

Como o relatório assinala, “se permitimos que a obsolescência tecnológica se repita por si mesma, estamos amarrados a contínuos aumentos de custos ou pior, ao fracasso de guardar recursos importantes”.

Em outras palavras, poderemos ver Wallace Beery muito depois de que as imagens contemporâneas se tenham desvanecido.


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