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Conselho de um profissional: Norayr Kasper,CSC

Norayr Kasper, CSC estudou arquitetura, vídeo e fotografia. Emigrou para Montreal em 1987 e estudou cinema na Concordia University. Seu primeiro filme foi Calendar. Entre seus créditos estão incluídos os projetos de televisão The Last Debate, Trudeau, The Death and Life of Nancy Eaton, Last Exit, St. Urbain's Horseman, e Race to Mars, além dos filmes Walk All Over Me, Two Thousand and None, The Life Before This, e Time of the Wolf. Seus trabalhos tem obtido indicações para os prêmios CSC e Gemini.

Kasper
Norayr Kasper, CSC

P: Como o Sr. decide qual será o formato adequado para um projeto específico?  A arte de narrar ainda continua sendo a mesmo e não é afetada pela plataforma, como gosto de chamá-la. No lado técnico, existem desafios. Temos que apreciar a tecnologia, colaborar e entender como manipulá-la. Entretanto, não penso que isto afete ou altere o lado artístico de alguma maneira. O elemento espiritual e imaginativo, e como compomos e a iluminação permanecem da mesma forma. Vem de dentro, e qual a ferramenta que usaremos não deverá ser um obstáculo. Ao mesmo tempo, é muito importante assinalar que o vídeo não libera qualquer coisa. É uma outra plataforma em conjunto. Possibilita ter a opção de continuar filmando e a opção de contar com câmeras pequenas. Mas, estas opções não tornam ou criam um cinema melhor. A narrativa dramática vai acompanhada da disciplina. Existe uma disciplina de como narramos a história, o que fazemos, e quem representa o que e em que função. Gostaria que as pessoas entendessem que tenho título de engenheiro em vídeo desde 1983. Por isto, para mim, essa curva de aprendizagem em direção do vídeo e do sistema digital ocorreu na década de 80. Não é nenhuma novidade. Então, para mim não representa qualquer tipo de salto. Como diretor de fotografia, o importante é como a usamos para se expressar por si mesmo. Nunca comprei a idéia de incorporar grãos ao vídeo para fazer com que parecesse um filme. O vídeo é o vídeo. Por que estamos tratando de fazer com que se pareça ao filme? Existe alguma coisa um tanto holística sobre o uso do filme. Existe uma lente, uma luz, uma reação química e alguma coisa um tanto holística sobre este processo, devido a que as alternativas são camadas e mais camadas de placas eletrônicas, criadas e fabricadas. Às vezes, parece que a tecnologia nos diz como nos expressarmos  pessoalmente em vez de nos expressarmos nós mesmos através desta tecnologia. Isto está ocorrendo cada vez mais e mais. Tem havido muita discussão profética sem sentido sobre o vídeo versus o filme desde a década de 80. Acho triste que muitos tem escolhido atuar como um vendedor em vez de atuar como um artista.

P: Os avanços na tecnologia como a pós-produção digital, filmes mais sensíveis, câmeras menores, e melhores lentes têm alterado seu enfoque?
KASPER:
Isto tem ocorrido, mas pode ocorrer de ambas formas. As ferramentas têm proporcionado novas liberdades, mas essa liberdade, às vezes, se traduz em menos tempo. Às vezes, sou solicitado para filmar um filme em 18 dias. É um pouco cruel solicitar aos diretores de fotografia fazer as coisas desta forma, especialmente quando os diretores e os produtores estão esperando obter um look de um filme de 50 milhões. Vemos as restrições e tratamos de fazer com que esta velocidade e esta brutalidade se encaixem em um conceito visual. Mas o progresso da tecnologia deve vir junto de um progresso em nosso entendimento em como usa-la. Se amanhã eu tiver um filme com uma sensibilidade de 1.000, levará um tempo para que eu possa entender o filme, como um pintor com um pincel novo. Idealmente, a tecnologia cria em mim uma certa sensação de liberdade para experimentar. Tenho dedicado 25 anos para aprender a composição e a iluminação e, ainda assim um pouco deste conhecimento é usado quando ouço no set, “Não se preocupe, continue filmando e regularemos na pós-produção”. E, mesmo assim, percebemos que geralmente regulam a sensibilidade através da pós-produção sem consultar o diretor de fotografia.  De algum modo, acho os diretores de fotografia perdidos no que fazer com estes avanços. Imagine milhões de pessoas fazendo o download de filmes, altamente compactados, que nunca chegaram às telas dos cinemas. O pior é que assistiram aos filmes em seus aparelhos portáteis no metrô, a caminho do trabalho.

P: Como o Sr. tem alterado o aspecto artístico?
KASPER:
O empobrecimento da arte da cinematografia é uma triste realidade. Alguns chamam de mudança, mas, quando vemos os diretores de fotografia jovens que não entendem o conceito de composição, é como se um pintor salpicasse cores na tela e não conseguisse desenhar uma mão se fosse solicitado. As instituições têm que trabalhar mais para formar e preservar a arte da cinematografia, não somente através de uma experiência técnica, mas também através do enriquecimento de futuros artistas com um conhecimento do mundo e uma cultura artística. Fico triste quando as pessoas dizem, 'É somente a televisão, ou um drama de televisão sobre duas pessoas conversando'. Para mim, eles estão desperdiçando níveis de significado que poderiam manter a atenção das pessoas. Estamos tratando de dizer algo mais – mais que dois rostos falando um para o outro sobre a mesma velha história. A cinematografia ilumina o pensamento por trás da palavra e eleva o significado em uma forma. Penso que um bom filme deverá contar com um equilíbrio sensível entre o conteúdo e a forma.

P: Como o Sr. definiria o papel de um diretor de fotografia?
KASPER:
Os diretores de fotografia não estão no centro das atenções. Não estão atuando, produzindo ou dirigindo, entretanto, os diretores de fotografia freqüentemente têm um certo sentido de apreciação introspectiva sobre as coisas que se manifestam através de um meio técnico. Não se trata somente de como colocar a luz, mas de como é sentida e porque. Compartilhamos uma percepção de nos deixar impressionar pelo ambiente, e esta sensação de introspecção e a necessidade de que alguém a expresse através de um significado técnico, usando algo da racionalidade que a cinematografia exige. Por isto, gosta da cinematografia; ela me permite construir uma ponte entre o conteúdo e a forma.


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